Balada das Aves de Arribação ou o Oitavo Poema...

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Balada das Aves de Arribação ou o Oitavo Poema...

Mensagem por Carlos Pereira em Sab Jul 21, 2007 12:04 pm

Vá lá, alguma «poesia ornitológica». Sei que estamos na era do digital e que todos se curvam perante as imagens - Faíscas do momento - mas, no início era o verbo...

Do último livro de Manuel Alegre: Doze Naus

Passam bandos nas sílabas de Fevereiro
a despedida paira sobre os arrozais
Partem narcejas e marrequinhas
tarambolas abibes patos reais
e os bandos que passam parece que deixam
no ar a canção do nunca mais.
Os torcazes começam a juntar-se
e os tordos ainda cantam nos olivais.
Também eles em breve partirão.
E uma parte de mim vai para o sul
Outra parte de mim vai para o norte.
Sou como as aves de arribação
Não consigo ficar
quando elas vão.

Reparem: «Passam bandos nas sílabas de Fevereiro(...)». Há coisas que a beleza - será por ser tão óbvia? - das imagens não dizem.

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Re: Balada das Aves de Arribação ou o Oitavo Poema...

Mensagem por Andorinha-dáurica em Sab Jul 21, 2007 3:37 pm

Bravo! Very Happy

Serão os "ares dos Açores" que estimulam a inspiração poética?

Deixo aqui um soneto do mais famoso poeta de S. Miguel ("mais famoso" até à data, porque se esta coisa da poesia ornitológica se espalha... Wink ):

DESPONDENCY

Deixá-la ir, a ave, a quem roubaram

Ninho e filhos e tudo, sem piedade...

Que a leve o ar sem fim da soledade

Onde as asas partidas a levaram...



Deixá-la ir, a vela que arrojaram

Os tufões pelo mar, na escuridade,

Quando a noite surgiu da imensidade,

Quando os ventos do Sul se levantaram...



Deixá-la ir, a alma lastimosa,

Que perdeu fé e paz e confiança,

À morte queda, à morte silenciosa...



Deixá-la ir, a nota desprendida

Dum canto extremo... e a última esperança...

E a vida... e o amor... deixá-la ir, a vida!



Antero de Quental

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Re: Balada das Aves de Arribação ou o Oitavo Poema...

Mensagem por Carlos Pereira em Seg Jul 23, 2007 12:45 pm

Um belíssimo soneto do Antero mas, como sempre, falava mais dele próprio. Aliás, depois viu-se como acabou(era um dos «Vencidos da Vida»): gloria victis .

A Literatura portuguesa, e a Poesia em particular, está cheia de belos poemas em que as aves são figuras maiores. Deixo aqui outro, do mesmo livro de Manuel Alegre:

BLACKBIRD OU O QUARTO POEMA DO...(mais uma vez não completo o título. Para evitar a polémica e para aguçar o apetite...)

Um pássaro negro voava
voava no meio do branco
não sei se sombra ou palavra
ou verso na página em branco.
Sei que era negro e voava
Voava no meio do branco.


Outro escritor e poeta açoriano(este do século passado), Vitorino Nemésio também tem vários poemas em que as aves são o tema(muitas vezes metafóricamente). Fica a pista para que sirva a quem tenha interesse.

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