Nidificação de Dom-fafe (Pyrrhula pyrrhula) na Região Centro

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Re: Nidificação de Dom-fafe (Pyrrhula pyrrhula) na Região Centro

Mensagem por Paulo Lemos em Dom Mar 27, 2016 3:08 pm

pedro121 escreveu:
mas não tens provas concretas disso.

O habitat que indicas não faz muito sentido, dom-fafes em silvados? e não está particularmente de acordo com a literatura, mas tudo bem, as aves adaptam-se.

a espécie em causa tem uma população muito grande e não está de modo nenhum ameaçada ou é sensível, por isso faz-me um bocado de confusão a questão.
De qualquer modo a questão em si é apenas uma curiosidade, de pouca ou nenhuma importância no esquema das coisas, seria mais significativo que a população portuguesa estivesse em aumento sustentável do que saber se há casais a criar a sul da área de distribuição.

Eu este ano quero ver Cruza-bicos e Melros-de-agua que estão a criar em Leiria, claro que nesses casos os locais são lógicos, a presença das aves documentada, e foram vistos por vários observadores.

Quanto a não ter provas, não deves ter lido tudo.
Se não as expus todas, ok já poder ter razão (mas não esquecer sou do contra Twisted Evil ). Mas para quê, não só pela fraca qualidade devido equipamento menos vocacionado, mas porque 1ª evidencia (macho a encher o papo) achei logo mais do que suficiente para o objectivo do tópico, que é dar atenção a uma espécie entre outras aparentemente dependentes de algumas características ambientais que vão rareando a Sul nas ultimas décadas (percebem quais alterações? - mudança na floresta (gestão e fogo), nas práticas agrícolas e a seca, por vezes subtil mas danosa= alteração generalizada da vegetação? Tratando-se de um fringilídeo e com a descrição relatada, a sequência de frames postada vale mais do que uma imagem de insectívora com uma série de lagartas arrumadas no bico...

Por outro lado, acerca do "biotopo ideal", o que mais se sente nestas temas é informação em falta, na literatura, até sobre as aves mais populares. Ou quiçá muitos equívocos por limar, porque o conhecimento vai evoluindo e também pq novos locais (ecologia) acolhem sempre novidades. No entanto, sem dúvida de que os arbustos (sobretudo espinheiros sp.) e o ambiente protector dos silvados + mantos de madressilva, Rosa sp, etc, (que tb dão recursos), são cruciais a esta ave, e provavelmente em qq lugar onde há. Onde viste os Dom-fafe? No extremo Norte, em Montesinho? Onde constroem o ninho exactamente, viste? Provavelmente irás encontrar ambientes algo coincidentes com a descrição que fiz com a inclusão da agricultura tradicional de subsistência, e não só "floresta" (e não só os seus "hedges" predominantemente florestais). Há literatura "extra-ornitológica" que, por exemplo em Montesinho, destaca a importância ambiental local dos hedgerows (com Prunus spinosa e outros) http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1752-4598.2010.00088.x/abstract em meio agrícola. Aliás, o que me parecem as características ecológicas ideais para essa ave são-no também para algumas espécies de invertebrados como essa borboleta em terras mais Nortenhas e no Centro... a floresta é um pormenor como outros, nem sempre presente ou dominante. Mais florestal me parece o Tentilhão, que menos depende de outro tipo coberto vegetal do que "árvores" (apesar de adaptável).
Se os bichos são mais conspícuos, detectáveis ou mesmo comuns no Norte, não sei... essa qualidade depende tanto de variações individuais ou populacionais, densidade dessas populações, ameaças, clima, tanta coisa... A única população que conheço é a que tentei descrever aqui, menos detectável no período estival.

Quanto a outros observadores, de facto convidei 2 "nossos amigos", porque os vi interessados em ver Thecla betulae a partir da minha galeria. Combinou-se durante 2 dias e eles viram tanto essa espécie como os Dom-fafe no mesmo local (o casal) em plena época estival. Julgo que terão respeitado o meu pedido temporário de segredo, portanto sou o responsável pelo seu relativo silêncio e expliquei alguns motivos.

Se entretanto mais alguém descobrir e publicar nidificação, "óptimo"... pelo menos a parte do descobrir, e por essa parte divulguei.
Quanto a mim, não tenho mais pressa em publicar como em ponderar a forma como trabalhar esse conhecimento, especialmente tendo em conta o contexto humano local e mais uma série de questões, algumas delas relacionadas com conservação e um monte de politiquices (uma das que nem entendo completamente é o do lobby dos desbastes).
Há malta que pega fogo e há malucos que o fazem de borla por eles, pelo pretexto de uma "mosca".

Outras questões como a dos Melros de água, cuja população parece aumentar em numero pelo menos nas beiras, e talvez consequentemente distribuição (face ao que conhecia há dezenas de anos e portanto nada me admira que criem em Leiria) ou o caso dos cruza-bico cuja nidificação em qq lugar de Portugal é espectável, não consigo ver como realmente tão importantes em termos conservantistas devido às alterações que referi, ou pelo menos como população residual que no mínimo ostente diferenças na ecologia (é já é muito de interessante). Os Loxia parecem uma espécie mais "nómada" na reprodução, já o vi claramente e inclusive fora de época como resposta a oferta extrema de recursos (girassol). Portanto "acredito"  Very Happy que os D.fafe nidificantes mais a Sul se tratem de uma população relíquia e quiçá provavelmente em retrocesso como certas outras (Emberiza sp., Lanius collurio, etc). A distribuição, bem entendida com os dados bem interpretados, poderá tanta ou mais importância do que um possível aumento de numero que será evidente noutras espécies que "aparentemente alastram" para Sul.
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Paulo Lemos

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Re: Nidificação de Dom-fafe (Pyrrhula pyrrhula) na Região Centro

Mensagem por Gonçalo Elias em Dom Mar 27, 2016 3:36 pm

Paulo, todo o teu discurso assenta numa data de suposições.

Destaco apenas algumas:

Paulo Lemos escreveu:
Se não as expus todas, ok já poder ter razão (mas não esquecer sou do contra Twisted Evil ). Mas para quê, não só pela fraca qualidade devido equipamento menos vocacionado, mas porque 1ª evidencia (macho a encher o papo) achei logo mais do que suficiente para o objectivo do tópico

1ª suposição, a de assumires que esse comportamento do macho significa que estão a nidificar

Paulo Lemos escreveu:que é dar atenção a uma espécie entre outras aparentemente dependentes de algumas características ambientais que vão rareando a Sul nas ultimas décadas (percebem quais alterações? - mudança na floresta (gestão e fogo), nas práticas agrícolas e a seca

2ª suposição, a de assumires que a seca está a afectar a distribuição das aves. É tudo suposição, não há dados, aliás nem sequer há dados que sustentem que está a haver uma tendência para a seca.

Paulo Lemos escreveu:Tratando-se de um fringilídeo e com a descrição relatada, a sequência de frames postada vale mais do que uma imagem de insectívora com uma série de lagartas arrumadas no bico..

3ª suposição, a de que pelo facto de se tratar de um fringilídeo se pode concluir aquilo que pretender (a qualquer custo) concluir.

Paulo Lemos escreveu:Por outro lado, acerca do "biotopo ideal", o que mais se sente nestas temas é informação em falta, na literatura, até sobre as aves mais populares.

4ª suposição, a de que não há informação sobre os biótopos preferidos pelas aves.

Paulo Lemos escreveu:No entanto, sem dúvida de que os arbustos (sobretudo espinheiros sp.) e o ambiente protector dos silvados + mantos de madressilva, Rosa sp, etc, (que tb dão recursos), são cruciais a esta ave

5ª suposição, a de que os dom-fafes dependem dos silvados

Paulo Lemos escreveu:Outras questões como a dos Melros de água, cuja população parece aumentar em numero pelo menos nas beiras, e talvez consequentemente distribuição (face ao que conhecia há dezenas de anos e portanto nada me admira que criem em Leiria)

6ª suposição, a de que o melro-d'água está em expansão geográfica e populacional

Paulo Lemos escreveu:Portanto "acredito"  Very Happy que os D.fafe nidificantes mais a Sul se tratem de uma população relíquia

7ª suposição, sobre o estatuto supostamente reliquial dessa suposta população de dom-fafes... nada disto faz sentido... a menos que demonstres que no resto de toda a região centro não existem silvados ou condições idênticas às que encontraste

Paulo Lemos escreveu:e quiçá provavelmente em retrocesso como certas outras (Emberiza sp., Lanius collurio, etc).

8ª suposição, a que as Emberiza sp. (não percebi bem quais) e os Lanius collurio estão em regressão.


Isto é apenas uma selecção que retirei do teu último post.
É grande a quantidade de suposições que produzes, muitas delas em jeito de "certeza", sem contudo apresentar qualquer base ou informação concreta (para além das tuas impressões e da tua experiência pessoal) que sustente o que escreves.

Julgo que é importante separar aquilo que são factos bem estabelecidos daquilo que são meras opiniões e suposições e por isso convido-te a apresentares algo de mais concreto que sustente as afirmações que acima citei.[/quote]
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Gonçalo Elias

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Re: Nidificação de Dom-fafe (Pyrrhula pyrrhula) na Região Centro

Mensagem por Paulo Lemos em Dom Mar 27, 2016 6:25 pm

Ena, poupem-me  Shocked  Laughing .

1a - Não é de todo suposição. Investigado no terreno durante mais de 2 dias e noutros mais tarde, descrevi comportamentos associados, movimentos. Apresentei em forum (e não mais do que isso) como "confirmação" daquilo que já havia testemunhado décadas antes: vários casais nidificantes e distribuição relativamente ampla (não é localizada numa região em particular). Este tópico foi o cumprimento já tardio de uma nota prévia aquando me inscrevi para Atlas em Fev. do ano passado: não tendo tempo para sistemática, pelo menos poderia apontar o mais importante e dar informações e afins de pelo menos 3 espécies cuja certeza mais evidente é esta: o conhecimento e evolução das populações tem sido escasso e acho importante cada um dos casos.

2a - Isso já deu e ainda dava muita discussão (noutros circulos), com dados sobre dados, Ss separar umas coisas e relacionar as devidas, alguma conclusões são possíveis. Dados oficiais sobre clima também deverá haver, e consequências por cá, pelo menos no âmbito agrícola, estudos sobre solos ou suas capacidades há?
Da minha parte "pessoal", tenho alguma informação apesar de mal documentada e teria de reler um montão de artigos (científicos e de imprensa) rever testemunhos, etc, para melhor sustentar paralelismos.
Dou um exemplo da poluição, como apresentei no seminário da Lagoa de Óbidos há uns anos relativamente aos rios do Oeste: "Sublinho que um "rio limpo" considera-se 365 (ou 366) dias por ano... pois basta um dia de poluição para danar definitivamente um rio e torná-lo "rio sujo" (indirecta para as descargas à socapa, que ainda existem provavelmente). Na "seca" aplica-se em muitos casos esta teoria também, deixa consequências conforme a gravidade, a duração, o tipo, a zona alvo, estação do ano, etc..
O que quero dizer com isto, é que havendo estudos contraditórios ou não, estes fenómenos são difíceis de estudar nalguns casos e dependem mesmo de opiniões e visões muito diversas, tanto como a diversidade de habitat a da própria natureza (que se sabe mal estudada em muitos casos). O território nacional é extremamente diverso o que o torna difícil mas o que é certo (em facto e não suposição) é que as consequências aparecem.
A seca (e outros factores climáticos que a promovem, padrões menos comuns) moldou evidências de impacto nalguns biótipos mais sensíveis, sem excepção para áreas de montanha da RC pelo menos (a mais baixa altitude sobretudo). Na área da entomologia posso bem sustentá-lo para algumas espécies de invertebrados ripícolas ou dependentes da humidade ou presença dela como fonte de recursos, claramente em retrocesso em termos de nicho ecológico (que é especial e sempre foi localizado). O aumento das áreas ardidas, os efeitos do fogo e das áreas alteradas (inclusive no clima da PI e não só a nível local?) e as monoculturas podem ser tb "contabilizadas" como factores importantes, directos ou indirectos relacionados com a seca ou fragmentação de habitat. Mesmo nas zonas aparentemente intocadas, são recorrentes alterações da vegetação e até morte ou definhamento irreversível de arbustos e árvores, por vezes amplas ou importantes áreas a nível estratégico para a biodiversidade. Por em vezes em processos súbitos, sucumbem exemplares que estariam presentes há anos, séculos e até milénios através dos seus ascendentes. Pior: os solos e as suas características mudam, em muitos casos tornam-se vulneráveis e o irreversível acontece, bem como o irrecuperável (e não serão 5-10 ou 20 anos que recuperarão o que foi perdido, seja qual for a tendência para os próximos anos, sobretudo espécies/populações únicas).
Mais evidente são pequenos regatos frequentemente secos, as suas adjacências, que contadas como imensos pontos no mapa (por mais pequenos que sejam), fazem parte da continuidade territorial de populações de aves, das suas presas e recursos. Há 4 anos visitei Carnicães (perto de Trancoso) onde havia visto uma fêmea de Dom-fafe recolher repetidamente material para o ninho. Independentemente da acção humana, as características climax e vales verdejantes pejados de grilos e insectos raros tinham sumido (e já não vi as zonas onde atolava os pés desde criança) apenas vi pó e arbustos secos em coberto herbáceo totalmente alterado. E as espécies de aves mudaram! Parecia o Ribatejo/Alentejo nalguns pormenores.
A presença, pelo menos sazonal, de recursos hídricos (de qualquer tipo, até o mais subtil), influencia a nidificação de tantas espécies de aves e certamente as suas populações. O local de nidificação de uma espécie pode até mudar da 1ª para a 2ª postura ou inibi-la... e não suponho isso, segui-as todos os dias em observação). A (mudança da) vegetação relaciona-se com a sombra, abrigo, bagas ou flores, ou insectos, e o carácter sazonal é importante relacionando grupos taxonómicos/recursos. Algumas insectívoras nem necessitam de água "directamente" para nidificar, se tiverem à disposição outras alternativas como lagartas em abundância ou outros insectos carnudos que são mais abundantes em vegetação verdejante e solos menos secos... nem mesmo o rouxinol-comum ou a F.poliglota estariam tão vinculados como hoje à proximidade agua para beber. Também a redução das populações de insectos (esta terá também outras causas desconhecidas ainda, segundo parece) tem influencia no abandono das zonas mais secas por estas espécies em relação há uns 30 anos por exemplo.
Por outro lado, quanto mais abundantes recursos hídricos num território (reservatórios ou cursos), menos hipótese de emboscada de gavião num deles (é hábito particular do gavião ou açor é esconder-se num bebedouro e zás).... e não se menospreze isto.

3a
Nunca fui aficionado por essa família mas quem a estuda inclusivé a nível comportamental, garante que é sinal seguro. Haverá mais quem por aqui confirme?

4a
Claro que há. Mas baseados em quê? Números apenas?
Já agora, qual o teu conceito de espécie? Se vamos por aí...

5a
Mais uma vez destacam os "silvados"... mas, o ambiente que descrevi não tem só silvados, é sim o tal misto de zonas arborizadas, hedgerons e "zonas densas" graças à ajuda das trepadeiras que provavelmente tb dão recursos como bagas, mas acima de tudo oferecem bastante segurança.
As observações até ao momento, relativamente aos hábitos dos predadores e reacção da aves aos mesmos, aponta claramente que os silvados e espinheiros conferem protecção (e aliás os ninhos tb são nos silvados, em território de Gaio que criou a 30m do ninho de D-fafe no ano passado, num carvalho).

6a
Calma, eu disse "parece estar".

7a
Essa é mesmo uma suposição, e ficou bem claro... mas mesmo assim não o disse por acaso Very Happy.

8a
Em todas as zonas que revisitei nos ultimos anos na R.C., falta rever uma espécie outrora muito comum e conspícua de Emberiza que não cirlus nem cia. Quando era miúdo topava-as de longe nas encostas mas estave sempre ocupado entre outros bichos, portanto nunca as vi de perto e muito menos as identifiquei, nem tinha livros sobre todas as espécies. Foi também uma pena nunca ter criado uma nidícola de Acrocephalus cf. melanopogon até ao fim nos 80s no Oeste, decidi devolve-la ao ninho e hoje não sei de que espécie se tratava ao certo. Criou uma sp. de Acrocephalus de cabeça listada em 3 spots de caniçal no Litoral Oeste. Os L. collurio já criaram em 2 spots no litoral Oeste nos 80s-90s - Caldas da Rainha- Salir e lembro-me deles em Mafra (na época de criação e em alarme), nos 70s.

---

Pode chocar, ou contrastar com o que está (e sobretudo revelar o que não está) publicado. É certo que nunca vi mapas antigos de distribuição de espécies como a que, por exemplo poderia ter feito do Oriolus no Oeste há umas décadas. Por exemplo, somente em 1989 contando pontos das Caldas da Rainha, o resultado seria um mapa com aspecto de formigueiro. O mapa do L. senator também se assemelharia a um formigueiro... e a preferência da espécie para construção do ninho era o Pinus pinaster. Afinal, qual a preferência das aves?

Neste caso, defendendo o habitat do Dom-fafe na RC (de alguma forma sensibilizar para se manterem as correctas sebes, com fartura junto a floresta e agricultura tradiconal), há outras espécies emblemáticas e pouco estudadas "interessadas" nisso como a Thecla betulae, que na verdade é ainda pouco rara nem tão pouco dispersa pelos "montes e vales" da RC (e na verdade tanto há também a adiantar/acrescentar ou até alterar sobre o conhecimento desta espécie, provavelmente resultado apenas de diversidade e não de equívocos passados). E juntamente, uma carrada de biodiversidade.
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Re: Nidificação de Dom-fafe (Pyrrhula pyrrhula) na Região Centro

Mensagem por Gonçalo Elias em Seg Mar 28, 2016 12:33 am

Paulo Lemos escreveu:Ena, poupem-me  Shocked  Laughing .

Como eu te compreendo What a Face
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Re: Nidificação de Dom-fafe (Pyrrhula pyrrhula) na Região Centro

Mensagem por pedro121 em Seg Mar 28, 2016 2:11 am

Paulo Lemos escreveu:Ena, poupem-me  Shocked  Laughing .

1a - Não é de todo suposição. Investigado no terreno durante mais de 2 dias e noutros mais tarde, descrevi comportamentos associados, movimentos. Apresentei em forum (e não mais do que isso) como "confirmação" daquilo que já havia testemunhado décadas antes: vários casais nidificantes e distribuição relativamente ampla (não é localizada numa região em particular). Este tópico foi o cumprimento já tardio de uma nota prévia aquando me inscrevi para Atlas em Fev. do ano passado: não tendo tempo para sistemática, pelo menos poderia apontar o mais importante e dar informações e afins de pelo menos 3 espécies cuja certeza mais evidente é esta: o conhecimento e evolução das populações tem sido escasso e acho importante cada um dos casos.

2a - Isso já deu e ainda dava muita discussão (noutros circulos), com dados sobre dados, Ss separar umas coisas e relacionar as devidas, alguma conclusões são possíveis. Dados oficiais sobre clima também deverá haver, e consequências por cá, pelo menos no âmbito agrícola, estudos sobre solos ou suas capacidades há?
Da minha parte "pessoal", tenho alguma informação apesar de mal documentada e teria de reler um montão de artigos (científicos e de imprensa) rever testemunhos, etc, para melhor sustentar paralelismos.
Dou um exemplo da poluição, como apresentei no seminário da Lagoa de Óbidos há uns anos relativamente aos rios do Oeste: "Sublinho que um "rio limpo" considera-se 365 (ou 366) dias por ano... pois basta um dia de poluição para danar definitivamente um rio e torná-lo "rio sujo" (indirecta para as descargas à socapa, que ainda existem provavelmente). Na "seca" aplica-se em muitos casos esta teoria também, deixa consequências conforme a gravidade, a duração, o tipo, a zona alvo, estação do ano, etc..
O que quero dizer com isto, é que havendo estudos contraditórios ou não, estes fenómenos são difíceis de estudar nalguns casos e dependem mesmo de opiniões e visões muito diversas, tanto como a diversidade de habitat a da própria natureza (que se sabe mal estudada em muitos casos). O território nacional é extremamente diverso o que o torna difícil mas o que é certo (em facto e não suposição) é que as consequências aparecem.
A seca (e outros factores climáticos que a promovem, padrões menos comuns) moldou evidências de impacto nalguns biótipos mais sensíveis, sem excepção para áreas de montanha da RC pelo menos (a mais baixa altitude sobretudo). Na área da entomologia posso bem sustentá-lo para algumas espécies de invertebrados ripícolas ou dependentes da humidade ou presença dela como fonte de recursos, claramente em retrocesso em termos de nicho ecológico (que é especial e sempre foi localizado). O aumento das áreas ardidas, os efeitos do fogo e das áreas alteradas (inclusive no clima da PI e não só a nível local?) e as monoculturas podem ser tb "contabilizadas" como factores importantes, directos ou indirectos relacionados com a seca ou fragmentação de habitat. Mesmo nas zonas aparentemente intocadas, são recorrentes alterações da vegetação e até morte ou definhamento irreversível de arbustos e árvores, por vezes amplas ou importantes áreas a nível estratégico para a biodiversidade. Por em vezes em processos súbitos, sucumbem exemplares que estariam presentes há anos, séculos e até milénios através dos seus ascendentes. Pior: os solos e as suas características mudam, em muitos casos tornam-se vulneráveis e o irreversível acontece, bem como o irrecuperável (e não serão 5-10 ou 20 anos que recuperarão o que foi perdido, seja qual for a tendência para os próximos anos, sobretudo espécies/populações únicas).
Mais evidente são pequenos regatos frequentemente secos, as suas adjacências, que contadas como imensos pontos no mapa (por mais pequenos que sejam), fazem parte da continuidade territorial de populações de aves, das suas presas e recursos. Há 4 anos visitei Carnicães (perto de Trancoso) onde havia visto uma fêmea de Dom-fafe recolher repetidamente material para o ninho. Independentemente da acção humana, as características climax e vales verdejantes pejados de grilos e insectos raros tinham sumido (e já não vi as zonas onde atolava os pés desde criança) apenas vi pó e arbustos secos em coberto herbáceo totalmente alterado. E as espécies de aves mudaram! Parecia o Ribatejo/Alentejo nalguns pormenores.
A presença, pelo menos sazonal, de recursos hídricos (de qualquer tipo, até o mais subtil), influencia a nidificação de tantas espécies de aves e certamente as suas populações. O local de nidificação de uma espécie pode até mudar da 1ª para a 2ª postura ou inibi-la... e não suponho isso, segui-as todos os dias em observação). A (mudança da) vegetação relaciona-se com a sombra, abrigo, bagas ou flores, ou insectos, e o carácter sazonal é importante relacionando grupos taxonómicos/recursos. Algumas insectívoras nem necessitam de água "directamente" para nidificar, se tiverem à disposição outras alternativas como lagartas em abundância ou outros insectos carnudos que são mais abundantes em vegetação verdejante e solos menos secos... nem mesmo o rouxinol-comum ou a F.poliglota estariam tão vinculados como hoje à proximidade agua para beber. Também a redução das populações de insectos (esta terá também outras causas desconhecidas ainda, segundo parece) tem influencia no abandono das zonas mais secas por estas espécies em relação há uns 30 anos por exemplo.
Por outro lado, quanto mais abundantes recursos hídricos num território (reservatórios ou cursos), menos hipótese de emboscada de gavião num deles (é hábito particular do gavião ou açor é esconder-se num bebedouro e zás).... e não se menospreze isto.

3a
Nunca fui aficionado por essa família mas quem a estuda inclusivé a nível comportamental, garante que é sinal seguro. Haverá mais quem por aqui confirme?

4a
Claro que há. Mas baseados em quê? Números apenas?
Já agora, qual o teu conceito de espécie? Se vamos por aí...

5a
Mais uma vez destacam os "silvados"... mas, o ambiente que descrevi não tem só silvados, é sim o tal misto de zonas arborizadas, hedgerons e "zonas densas" graças à ajuda das trepadeiras que provavelmente tb dão recursos como bagas, mas acima de tudo oferecem bastante segurança.
As observações até ao momento, relativamente aos hábitos dos predadores e reacção da aves aos mesmos, aponta claramente que os silvados e espinheiros conferem protecção (e aliás os ninhos tb são nos silvados, em território de Gaio que criou a 30m do ninho de D-fafe no ano passado, num carvalho).

6a
Calma, eu disse "parece estar".

7a
Essa é mesmo uma suposição, e ficou bem claro... mas mesmo assim não o disse por acaso Very Happy.

8a
Em todas as zonas que revisitei nos ultimos anos na R.C., falta rever uma espécie outrora muito comum e conspícua de Emberiza que não cirlus nem cia. Quando era miúdo topava-as de longe nas encostas mas estave sempre ocupado entre outros bichos, portanto nunca as vi de perto e muito menos as identifiquei, nem tinha livros sobre todas as espécies. Foi também uma pena nunca ter criado uma nidícola de Acrocephalus cf. melanopogon até ao fim nos 80s no Oeste, decidi devolve-la ao ninho e hoje não sei de que espécie se tratava ao certo. Criou uma sp. de Acrocephalus de cabeça listada em 3 spots de caniçal no Litoral Oeste. Os L. collurio já criaram em 2 spots no litoral Oeste nos 80s-90s - Caldas da Rainha- Salir e lembro-me deles em Mafra (na época de criação e em alarme), nos 70s.

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Pode chocar, ou contrastar com o que está (e sobretudo revelar o que não está) publicado. É certo que nunca vi mapas antigos de distribuição de espécies como a que, por exemplo poderia ter feito do Oriolus no Oeste há umas décadas. Por exemplo, somente em 1989 contando pontos das Caldas da Rainha, o resultado seria um mapa com aspecto de formigueiro. O mapa do L. senator também se assemelharia a um formigueiro... e a preferência da espécie para construção do ninho era o Pinus pinaster. Afinal, qual a preferência das aves?

Neste caso, defendendo o habitat do Dom-fafe na RC (de alguma forma sensibilizar para se manterem as correctas sebes, com fartura junto a floresta e agricultura tradiconal), há outras espécies emblemáticas e pouco estudadas "interessadas" nisso como a Thecla betulae, que na verdade é ainda pouco rara nem tão pouco dispersa pelos "montes e vales" da RC (e na verdade tanto há também a adiantar/acrescentar ou até alterar sobre o conhecimento desta espécie, provavelmente resultado apenas de diversidade e não de equívocos passados). E juntamente, uma carrada de biodiversidade.

Esta linha de argumentação lembra-me aqueles alunos que não sabendo a resposta a uma pergunta, mas tendo umas ideias, escrevem, escrevem e escrevem mais ainda, enchem tudo de palha, na esperança que lá no meio de toda a palha, o professor consiga encontrar a resposta certa.

Very Happy Very Happy Very Happy Tirando toda a palha o que fica? que viste Dom-fafes, em locais não especificados, em datas não especificadas. Ahh e que foi confirmado por dois observadores não especificados.


Que não queiras indicar locais em concreto tudo bem, mas no meio da palha deverias indicar as datas exactas e pelo menos os concelhos, ou tens medo que alguém deite fogo a um concelho porque algures lá está um casal de dom-fafe supostamente a nidificar? Very Happy Very Happy Very Happy
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Re: Nidificação de Dom-fafe (Pyrrhula pyrrhula) na Região Centro

Mensagem por pedro121 em Seg Mar 28, 2016 3:11 am

Paulo Lemos escreveu:
Em todas as zonas que revisitei nos ultimos anos na R.C., falta rever uma espécie outrora muito comum e conspícua de Emberiza que não cirlus nem cia. Quando era miúdo topava-as de longe nas encostas mas estave sempre ocupado entre outros bichos, portanto nunca as vi de perto e muito menos as identifiquei,

pois, admito que hoje em dia seja mais difícil dar com Emberiza calandra mas se quiseres posso indicar-te alguns locais perto. Twisted Evil Twisted Evil


Paulo Lemos escreveu:Foi também uma pena nunca ter criado uma nidícola de Acrocephalus cf. melanopogon até ao fim nos 80s no Oeste, decidi devolve-la ao ninho e hoje não sei de que espécie se tratava ao certo. Criou uma sp. de Acrocephalus de cabeça listada em 3 spots de caniçal no Litoral Oeste.

Ainda só fizeste referencia a isso 2 ou 3 vezes neste tópico, espero que te esforces mais, a propósito embora Cisticola juncidis parece um Acrocephalus não é de facto um Acrocephalus. Twisted Evil Twisted Evil

Paulo Lemos escreveu:Os L. collurio já criaram em 2 spots no litoral Oeste nos 80s-90s - Caldas da Rainha- Salir e lembro-me deles em Mafra (na época de criação e em alarme), nos 70s.

Claro que sim, claro, é que eles até nem dão nas vistas, e são algo complicados de se ver. Neste caso em particular acho que farias bem em equacionar um possível erro de identificação da tua parte. Pintarroxos talvez?

Peço desculpa mas vou usar uma expressão "moderna" para descrever o que eu acho das afirmações do Paulo.

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Re: Nidificação de Dom-fafe (Pyrrhula pyrrhula) na Região Centro

Mensagem por Paulo Lemos em Seg Mar 28, 2016 11:43 am

E assim vai o mundo pá! Smile
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Re: Nidificação de Dom-fafe (Pyrrhula pyrrhula) na Região Centro

Mensagem por pedro121 em Seg Mar 28, 2016 1:01 pm

Paulo Lemos escreveu:E assim vai o mundo pá! Smile

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Re: Nidificação de Dom-fafe (Pyrrhula pyrrhula) na Região Centro

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