ZPE e IBA

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ZPE e IBA

Mensagem por Gonçalo Elias em Ter Out 03, 2017 8:43 am

Abro este tópico para trocar impressões sobre as áreas classificadas como ZPE e IBA.

As ZPE são Zonas de Protecção Especial para Aves e integram a rede Natura 2000. São definidas por lei. Mais informação aqui.

As IBA são Áreas Importantes para as Aves. São definidas pela BirdLife International e pelos seus parceiros (SPEA no caso português). Ao contrário do que acontece com as ZPE, o facto de uma área ser IBA não confere qualquer tipo de protecção legal. Mais informação aqui.

Tanto quanto sei, todas as ZPE são IBA mas nem todas as IBA são ZPE. Por outras palavras, quando uma zona é classificada como ZPE, logo a seguir é criada uma IBA nessa zona, mas há várias IBA que foram criadas sem que exista no local qualquer ZPE.


Feita este introdução, lanço aqui a questão que me levou a abrir este tópico: será que a rede actual de ZPE (e IBA) faz sentido do ponto de vista da conservação? Mais concretamente, será que todas as ZPE existentes ainda se justificam? E será que se justificariam novas ZPE?
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Re: ZPE e IBA

Mensagem por Gilberto Pinelas em Ter Out 03, 2017 9:21 am

Estando a léguas em termos de conhecimento sobre estas matérias relativamente a determinados colegas de fórum como Tu, mesmo assim ouso dizer que, pelo que vi e vejo desde que comecei nestas andanças, pela falta de educação, respeito, sensibilidade e cidadania que grassa no nosso país, sobretudo, nos espaços que tenho calcorreado em busca daquilo que alimenta este meu esforço e dedicação, fazem todo o sentido no aspecto conservacionista. Aliás, estou convicto que, as existentes, e agora não importa quais, nem onde, na minha opinião, repito, são escassas, sobretudo, onde ocorram espécies marinhas junto á nossa costa, designadamente em determinados períodos do ano. Esta é a minha singela opinião.
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Re: ZPE e IBA

Mensagem por Gonçalo Elias em Ter Out 03, 2017 9:46 am

Olá Gilberto,

Obrigado pela tua opinião.

Eu tenciono desenvolver mais o tema neste mesmo tópico, de qualquer forma não queria deixar de comentar isto:

Gilberto Pinelas escreveu:estou convicto que, as existentes, e agora não importa quais, nem onde, na minha opinião, repito, são escassas, sobretudo, onde ocorram espécies marinhas junto á nossa costa, designadamente em determinados períodos do ano. Esta é a minha singela opinião.

Entendo o raciocínio, mas creio ser importante salientar que as ZPE e as IBA foram definidas segundo determinados critérios, nomeadamente a ocorrência de populações importantes / significativas de determinadas espécies, nomeadamente espécies ameaçadas ou populações importantes de certas espécies.


Dou um exemplo: ZPE Leixão da Gaivota (e respectiva IBA).
Ficha da ZPE: http://www.icnf.pt/portal/pn/biodiversidade/rn2000/resource/doc/zpe-cont/lgaivot
Ficha da IBA: http://ibas-terrestres.spea.pt/fotos/editor2/pt032.pdf

Motivo da classificação como ZPE: existência de uma importante colónia de garças-brancas e boieiras.

Nas orientações de gestão da ZPE e no quadro da IBA apenas se refere a Egretta garzetta, o que sugere que o estatuto de ZPE e de IBA visaria sobretudo a protecção dessa espécie. Sucede, porém, que actualmente quase só nidificam garças-boieiras (há meia dúzias de casais de brancas). A minha dúvida é: justifica-se uma ZPE para proteger uma colónia de garças-boieiras, sendo que existem dezenas de colónias desta espécie no país?

Não estou a propor a desclassificação imediata, mas considerando que o diploma que classificou o local como ZPE data de 1999, tem portanto quase 20 anos, acredito que se justifica uma revisão do estatuto, tendo por base uma actualização da informação (actualização essa que me parece não existir).


Em jeito de contraponto, dou um exemplo de um local tão ou mais importante: a ilha de Escaroupim, em Salvaterra de Magos. Este local tem uma enorme colónia das duas espécies citadas, havendo também garça-nocturna, garça-real, papa-ratos, colhereiro e íbis-preta. Arrisco dizer que é uma das principais colónias de ciconiiformes do país, se atendermos à quantidade de ninhos e à diversidade de espécies. No entanto, o local não tem qualquer estatuto de protecção (nem IBA nem ZPE). E se calhar merecia.
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Re: ZPE e IBA

Mensagem por Gilberto Pinelas em Ter Out 03, 2017 10:31 am

Obrigado, Gonçalo, por perceberes o meu raciocínio…

Sobre aquilo que disseste, eu também compreendo a tua intenção, no entanto, sou mais apologista de uma mera revisão, reclassificação ou ajustamento, mas, na minha opinião, repito, diz-me a minha experiência de vida que, uma suposta e definitiva abolição de um estatuto nestas circunstâncias pode ser sempre um “pau de dois bicos”, sobretudo, se as ditas zonas estiverem ubicadas em propriedade privada. É minha convicção que, apesar de termos dado grandes passos no sentido conservacionista, isto relativamente ao passado, ainda temos grandes lacunas, impedimentos de natureza diversa que, num determinado momento, podem inverter ou mesmo deitar por terra o trabalho de muitos anos.

Ás portas de Lisboa e a título de exemplo, a Costa da Caparica e a Lagoa de Albufeira, inclusive, na minha opinião carecem dessas zonas de proteção/refugio. Não se percebe, eu pelo menos não percebo, se são internacionalmente reconhecidas como sendo zonas de excelência para observação de aves marinhas, sobretudo, gaivotas, se vários autores de projetos internacionais de anilhagem as visitam no intuito de reforçarem os seus estudos, o seu conhecimento, como é que, nestes sítios/locais/espaços, não existe maior atenção e, neles, não foram ainda criadas essas zonas de proteção/refugio para este tipo de aves. Para mim faz todo o sentido existirem, no mínimo, duas “IBA” nestes locais, mesmo não estando inseridas numa “ZPE”…
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Re: ZPE e IBA

Mensagem por Gonçalo Elias em Ter Out 03, 2017 10:42 am

Gilberto, nota que uma zona não é classificada como IBA apenas porque tem "muitas" aves. A classificação baseia-se muito na ocorrência de espécies com estatuto de ameaça.

E esta classificação tem a ver com conservação e não com observação.

Por exemplo, há albufeiras onde se juntam regularmente 500 patos-reais. Mas o pato-real não tem estatuto de ameaça e 500 patos-reais não representam uma parcela muito significativa no contexto nacional e europeu. Já se forem 500 zarros ou patos-de-bico-vermelho, a relevância aumenta imediatamente.

Da mesma forma, se numa dada área nidificarem dez casais de cegonha-branca, isso não é especialmente relevante (em Portugal são mais de dez mil), mas se nidificarem dez casais de cegonha-preta, isso é muito relevante, porque representa quase 10% da população nacional.

No caso do exemplo que apresentas da Costa da Caparica, sei que aí ocorrem grandes bandos de gaivotas. Pelo que sei, trata-se sobretudo de L. fuscus e L. michahellis, duas espécies muito abundantes, que não se encontram ameaçadas. Creio que a ocorrência destas duas espécies não justifica, por si só, a classificação de uma zona como IBA.

Quanto à lagoa de Albufeira, o local (mais precisamente a Lagoa Pequena) é uma ZPE, devido à ocorrência de várias espécies com estatuto de ameaça.
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Re: ZPE e IBA

Mensagem por Rui Figueiredo em Ter Out 03, 2017 11:03 am

Gonçalo,
acho que faz todo o sentido o que dizes.
Começando pelas ZPE, faz todo o sentido fazer-se uma avaliação para perceber se os objetivos para os quais foram definidas as áreas de ZPE foram cumpridos ou estão a contribuir para tal.
Da lista de ZPE em Portugal (http://www.icnf.pt/portal/pn/biodiversidade/rn2000/rn-pt/rn-contin/zpe-pt) acho que esse deve ser o caso mais extremo mas porventura haverá outros.
Há no entanto um ponto que deve ser salvaguardado e que no caso das ZPE tem na minha opinião contribuído para conseguir introduzir alguma regulamentação específica no âmbitos dos planos de ordenamento do território (por exemplo Programa da Orla Costeira, Plano Diretor Municipal, etc). Os planos tem de se articular com o Plano Sectorial da Rede Natura 2000 e portanto as medidas que estão neste plano para cada uma destas áreas tem de ser compatibilizadas com as medidas propostas nestes planos. Não quer dizer que tenham de ser para lá vertidas completamente mas as medidas propostas não podem entrar em contradição com o que está estipulado no Plano Sectorial RN2000.
Isto faz com que desta forma haja um conjunto de medidas que de outra forma provavelmente não estariam nos regulamentos destes planos e que são assim lá colocadas. Outra questão é se tudo o que está no PSRN2000 faz sentido... mas isso deixo para outras núpcias.

Quanto às IBA`s a questão é outra. Ao não ter qualquer tipo de proteção legal associada faz com que perca muita força principalmente nas áreas consideradas como IBA e não como ZPE ou outro estatuto de conservação.
Agora e caso a sua avaliação e adaptação às reais necessidades de conservação sejam mais reais, acho que estas áreas podem funcionar como uma antecâmara de possíveis áreas a incluir em ZPE.



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Re: ZPE e IBA

Mensagem por Gilberto Pinelas em Ter Out 03, 2017 11:15 am

Mais uma vez percebo e aceito o teu ponto de vista, Gonçalo, no entanto a ameaça pode revelar-se de várias formas, sobretudo, se o descanso das aves enquanto migradoras estiver em causa e isso lhes possa causar distúrbios de natureza diversa e interfira com o seu percurso ou evolução natural e, no caso da Costa da Caparica, por exemplo, diversos e múltiplos são os casos de distúrbio gratuito. Assim sendo, paradigmaticamente não me parece bem que, apesar de fazer sentido, a classificação das ditas áreas se escude apenas ou maioritariamente no pressuposto de espécies ameaçadas face a índices populacionais.

Sim, a Lagoa pequena tem esse estatuto, mas, eu veria com bons olhos se, a mesma, se estendesse por toda a margem norte da Lagoa grande até á zona dunar face aquilo que tenho assistido por lá. E o impacto não é apenas sobre gaivotas.

Esta é a minha mera opinião.


Última edição por Gilberto Pinelas em Ter Out 03, 2017 11:26 am, editado 1 vez(es)
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Re: ZPE e IBA

Mensagem por Gonçalo Elias em Ter Out 03, 2017 11:23 am

Rui obrigado pelo esclarecimento sobre a necessidade de articulação entre o Plano Sectorial da RN2000 e outros instrumentos de ordenamento. Quanto ao resto, alguns comentários:

Rui Figueiredo escreveu:Começando pelas ZPE, faz todo o sentido fazer-se uma avaliação para perceber se os objetivos para os quais foram definidas as áreas de ZPE foram cumpridos ou estão a contribuir para tal.

Exacto. Eu tenho um bocado a sensação de que a informação está bastante desactualizada. Fez-se a lista inicial segundo os critérios e os dados da altura e depois não se voltou a mexer nisso, daí que a maior parte das ZPE e das IBA se baseie em dados de 1999, 2001, por aí - em muitos casos são evidentes discrepâncias com a realidade actual. O exemplo que dei do Leixão deve realmente ser o mais extremo, mas noutros casos nota-se diferença a nível de determinadas espécies. Mesmo que a manutenção da classificação se justifique plenamente, considero que faria sentido actualizar a informação, caso contrário fica a sensação de que "ninguém olha para aquilo".

Rui Figueiredo escreveu:
Agora e caso a sua avaliação e adaptação às reais necessidades de conservação sejam mais reais, acho que estas áreas podem funcionar como uma antecâmara de possíveis áreas a incluir em ZPE.

Parece-me que seria essa a ideia, mas isso nem sempre tem sucesso (um bom exemplo é a lagoa dos Salgados, que é IBA há muitos anos mas que não tem qualquer estatuto de protecção e não me parece que possa vir a ter num futuro próximo.

Gilberto Pinelas escreveu: Assim sendo, paradigmaticamente não me parece bem que, apesar de fazer sentido, a classificação das ditas áreas se escude apenas ou maioritariamente no pressuposto de espécies ameaçadas.

Creio que a ideia por trás destas classificações de ZPE e IBA foi a de definir zonas prioritárias para a conservação das aves. Considerando que os recursos disponíveis são necessariamente limitados, faz sentido que eles sejam (maioritariamente) canalizados para as espécies que se encontram sob estatuto de ameaça.
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Re: ZPE e IBA

Mensagem por Gilberto Pinelas em Ter Out 03, 2017 11:31 am

Bom, tendo em conta essas limitações, e se não podemos avançar através de outros recursos, concordo que se dê primazia a esse aspeto, claro.
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Re: ZPE e IBA

Mensagem por João Tomás em Ter Out 03, 2017 4:05 pm

Bem, o assunto é bastante pertinente. Acima de tudo o problema é sempre o mesmo: não se podem criar zonas ou locais delimitados para proteger uma ou mais espécies sem haver monitorização, ou seja, sem se perceber se efectivamente essa foi ou não uma boa decisão. Faltou e continua a faltar uma monitorização das espécies (não só de aves, claro). Aliás, falta conhecer o que existe em Portugal (pelo menos na maioria das espécies). Enquanto não se pensar na Natureza a longo prazo nunca saberemos se as acções que tomamos são boas, nulas ou negativas.

Há casos engraçados da lista de IBAs (isto numa pesquisa rápida):

IBA Serra do Marão e Alvão - já não há nidificação de gralha-de-bico-vermelho, águia-real nem de tartaranhão-cinzento.

Porque nunca se ter criado uma IBA ou ZPE da região do Barroso? Tendo em conta as espécies que alberga e sendo o único local de nidificação de algumas delas, acho que o justificaria. Mas depois há a questão: Será que adiantaria algo criar uma ZPE ou IBA nessa região? Se não há monitorização para quê criar?
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Re: ZPE e IBA

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