Uso de gravações para atrair as aves

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Re: Uso de gravações para atrair as aves

Mensagem por nunes em Sex Mar 26, 2010 12:02 am

Ponto comum: Bom senso

Mas o que é o bom senso? O bom senso varia de pessoa para
pessoa porque o conhecimento, experiência, contexto, objectivos entre outros
factores varia de pessoa para pessoa.

O facto de haver alguns caçadores que enchem/encheram as
zonas húmidas de chumbo, não respeitam os placares dos agricultores para não
pisarem o arroz ou ciclistas aos berros não me dá o direito de perturbar porque
a perturbação que faço é menor mas principalmente ter uma atitude de recusa em mudar os meus comportamentos mesmo que provem que são prejudiciais.

A fotografia, observação ou anilhagem vai sempre provocar perturbação.
Devemos é ter consciência disso e estar disposto a alterar os nossos
comportamentos se for claro que pode colocar em causa a conservação.

Aqui não foi provado que a emissão de vocalizações é
claramente prejudicial mas também não foi provado o contrário. No entanto, existe a percepção que devem ser utilizadas durante poucos minutos e que se deve evitar em algumas alturas do ano.

Não será isto bom senso, tendo em mente que não se sabe quais as consequências?

PS: A fotografia é um dos meios principais para divulgação destas
actividades e consequentemente da conservação.

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Re: Uso de gravações para atrair as aves

Mensagem por Luis Gordinho em Ter Dez 13, 2016 3:21 pm

Olá a todos,
Esta discussão começou há quase sete anos mas a verdade é que eu só a li agora.

Com toda a sinceridade, fiquei um pouco preocupado com a escassez de factos que aqui encontrei (ao fim ao cabo isto é uma discussão pública –visível para toda a gente e não apenas para ornitólogos e observadores-de-aves- como muito bem referiu o Pedro Marques). Isto pese embora a excelente forma de alguns posts, caso dos do Pedro Fernandes, que na minha opinião se expressou com invulgar clareza e educação. Globalmente acho o conteúdo legal e técnico deste thread insuficiente, vamos ver se o consigo ampliar um pouco.

Sobre a vertente legal, que o Paulo Tenreiro abordou de forma pontual no thread, há mais que se lhe diga. Não é só a proibição de perturbar referida no Artigo 11.º, ponto 1, alínea b do D-L n.º 49/2005. O mesmo D-L no Anexo C alínea a) proíbe o uso de "gravadores" de som (má escolha de palavras, deveria ser leitores ou aparelhos q reproduzem som). Na letra da lei é só para efeitos de captura mas o espírito da lei, embora implícito, parece-me claro. Outros diplomas legais que focam o tema são a Lei da Caça (201/2005), que no Artigo 82.º ponto 2 proíbe o uso de aparelhos de som para atrair animais (é só para espécies cinegéticas mas...), e a Directiva Aves (147CE/2009), que no Anexo IV e alínea (a) proíbe o uso de "tape recorders" (...) para caça e captura de animais. Uma vez mais, na letra da lei é só para efeitos de captura mas o espírito da lei, embora implícito, também me parece o mesmo.

Na vertente técnica, acho que vale a pena distinguir a bibliografia que já existia a quando dos anteriores posts deste thread (Março 2010) da bibliografia mais recente.
Começando pela primeira, um aspecto relevante que me veio logo à cabeça, foram as reacções a longo prazo (e.g. após 24h) da exposição a vocalizações conspecíficas (Amrhein & Lerch 2010). Outro artigo clássico que vale a pena ler é o de Langham et al. (2006) sobre pishing, particularmente a parte sobre as respostas/reacções ao pishing. Mais referências importantes pré-2010 são Wingfield (1985), Wingfield et al. (1990, 2001), Mennill et al. (2002), etc, listadas por Harris & Haskell (2013, ver abaixo). Desse período destaco a revisão técnica de Sen (2009).
A bibliografia pós-2010 é mais rica e específica. Aqui saliento um artigo de opinião de David Sibley (2011) e o único artigo científico (publicado numa revista do SCI, etc.) específico sobre o tema publicado até ao momento (Harris & Haskell 2013) e disponível na íntegra aqui:
http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0077902
Infelizmente, olhando para as citações de Harris & Haskell (2013) na Scopus (https://www.scopus.com) dá ideia que nos últimos três anos mais ninguém publicou especificamente sobre este tema (ou, se publicou, ou não cita Harris & Haskell 2013, ou foi numa publicação não indexada pela Scopus).

Bom, agora é ler estas cenas todas e formar uma opinião fundamentada sobre o assunto. Concordo que o bom-senso é fundamental mas é difícil tomar decisões ou formar juízos de forma equilibrada sem uma base factual sólida… Wink

Cumprimentos a todos, Luís G

Referências
Amrhein V, Lerch S (2010) Differential effects of moving versus stationary territorial intruders on territory defence in a songbird. J Anim Ecol. 79:82–87.
Harris JBC, Haskell DG (2013) Simulated Birdwatchers’ Playback Affects the Behavior of Two Tropical Birds. PLoS ONE 8(10): e77902. doi:10.1371/journal.pone.0077902
Langham GM, Contreras TA, Sieving KE (2006) Why pishing works: titmouse (Paridae) scolds elicit a generalized response in bird communities. EcoScience 13: 485–496. doi: 10.2980/1195-6860(2006)13[485:WPWTPS]2.0.CO;2
Sen SK (2009) The ethics and science of bird call playback. Available: http://www.kolkatabirds.com/callplayback.htm. Consultado a 13 Dezembro 2016.
Sibley DA (2011) The proper use of playback in birding. Available: http://www.sibleyguides.com/2011/04/the-proper-use-of-playback-in-birding. Consultado a 7 Dezembro 2016.
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Re: Uso de gravações para atrair as aves

Mensagem por Paulo Lemos em Ter Dez 13, 2016 11:35 pm

Tenho em parecer que, opinião fundamentada sobre o assunto como um "todo", não faz sentido.
Não só porque o titulo em discussão pode ser dividido em inúmeras sub-temáticas, cada uma dando "pano para mangas", tanto como é vasta a diversidade de aves e a sua complexidade ecológica. E, obviamente, porque há imensos objectivos para os quais a(s) técnica(s) poderia ser usada.

Fico-me só por um caso aplicado a uma espécie: a única vez que usei um som gravado para atrair uma ave, foi ao levar para a rua um grande "rádio-leitor de cassetes" com 2 colunas laterais e gravar-reproduzir o canto de chapim-carvoeiro em pleno Março. Até hoje, nunca vi resposta mais intensa de uma ave. O chapim atirou-se imediatamente ao aparelho colocado no chão (não camuflado e emitindo ruídos e distorção medonhas), atacando-o decidida e cegamente por mais de 10 minutos até que eu decidi "basta a experiência".
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